
O debate sobre a escala 6×1 ultrapassa a discussão sobre jornadas de trabalho e revela desafios estruturais relacionados ao tempo, à educação e à desigualdade social no Brasil.
Gilberto Alvarez, presidente da Fundação PoliSaber e diretor do Cursinho da Poli, propõe essa reflexão em artigo publicado originalmente no Congresso em Foco, analisando como diferentes formas de trabalho impactam o direito ao estudo, ao descanso, à convivência e ao desenvolvimento humano.
O artigo destaca ainda a importância de políticas públicas, responsabilidade social e integração entre educação e trabalho na construção de uma sociedade mais equilibrada e inclusiva.
O debate sobre o fim da escala 6×1 voltou ao centro da agenda nacional. No Congresso, propostas avançam. Nas ruas e nas redes, pessoas relatam cansaço, exaustão e falta de tempo para viver.
O tema não é novo. A Constituição de 1988 já havia estabelecido limites à jornada de trabalho no Brasil, fixando as 44 horas semanais como referência. Mas a discussão que agora retorna com força vai além de um ajuste regulatório. Ela toca em uma questão muito mais antiga, a forma como organizamos o tempo da vida em sociedade.
Desde a revolução agrícola, passando pela industrial, o trabalho se tornou o principal organizador do tempo humano. O que muda no século XXI é que esse tempo, cada vez mais comprimido, passa a se apresentar como uma das formas mais raras e desiguais de riqueza.
A escala 6×1 não é apenas um modelo de jornada. Ela expressa uma lógica mais profunda, na qual o tempo de descanso, de convivência, de estudo e de desenvolvimento pessoal se torna residual. Não por acaso, o debate ganhou força ao tocar em algo que muitas pessoas reconhecem antes mesmo de nomear, a sensação persistente de viver para trabalhar.
A falta de tempo não produz apenas cansaço físico. Ela altera a forma como pensamos, como decidimos e até como enxergamos o futuro. Quando o tempo se reduz ao trabalho, a vida se estreita. A atenção se fragmenta, o planejamento se enfraquece e o futuro deixa de ser projeto para se tornar apenas continuidade do presente.
Mas há um ponto que o debate ainda não enfrentou com a devida profundidade. Ele parte, quase sempre, da realidade do trabalho formal. E isso, no Brasil, já é uma limitação significativa.
Enquanto uma parcela da população discute a redução da jornada, outra sequer tem jornada a reduzir. São milhões de pessoas na informalidade, submetidas a rotinas imprevisíveis, sem direitos, sem proteção e, muitas vezes, sem qualquer controle sobre o próprio tempo. Nesse contexto, o problema não é apenas trabalhar demais. É não saber quando se vai trabalhar, quanto se vai ganhar e se haverá renda ao final do mês.
De um lado, a exaustão. De outro, a instabilidade. Em comum, a mesma consequência, a dificuldade de organizar a própria vida.
É nesse ponto que o debate sobre trabalho precisa encontrar a educação, ou, de forma mais ampla, o direito ao tempo de vida.
Quem trabalha seis dias por semana dificilmente encontra tempo e energia para estudar com qualidade. Quem vive do trabalho informal, muitas vezes, não consegue sequer sustentar uma rotina mínima de aprendizagem. Ainda assim, seguimos tratando a educação como se fosse um caminho igualmente acessível a todos.
Não é.
O estudante trabalhador vive um desafio silencioso. Frequenta aulas cansado, estuda de madrugada, perde continuidade, acumula lacunas. Em muitos casos, abandona. Quando permanece, o faz em condições muito mais difíceis do que aquelas enfrentadas por quem dispõe de tempo, estabilidade e apoio.
E essa desigualdade não começa na vida adulta.
Em regiões do Norte do Brasil, é comum que crianças se ausentem da escola durante períodos de colheita do açaí. Não se trata de uma exceção regional, mas de uma expressão visível de um problema nacional. O trabalho precoce atravessa a infância e compromete o tempo de vida, inclusive o tempo de aprender, em diferentes partes do país.
A trajetória é contínua. O tempo que falta na infância compromete a aprendizagem. A dificuldade se acumula na juventude. E, na vida adulta, o trabalho, formal ou informal, ocupa o espaço que poderia ser de estudo, descanso, convivência e desenvolvimento.
Mas há algo que raramente entra nesse debate. O que significa, afinal, ter tempo para viver?
Ter tempo para viver é poder estar com a família, participar de celebrações, construir vínculos, acompanhar o crescimento das crianças, cultivar amizades, ter momentos de descanso e até de contemplação. É poder existir para além da lógica produtiva.
Para muitas mulheres, esse tempo já não existe. Entre o trabalho remunerado, o cuidado com os filhos e filhas, as tarefas domésticas e, em alguns casos, o estudo, a jornada não termina. Ela se sobrepõe, se acumula, se fragmenta. A discussão sobre jornada de trabalho, quando desconsidera essa realidade, ignora que, para uma parcela significativa da população, o problema não é apenas a duração da jornada, mas a impossibilidade de interrompê-la.
O tempo não é apenas uma medida da economia. É também uma medida de desigualdade.
É por isso que o debate sobre a escala 6×1 é importante, mas insuficiente.
É também por isso que o Congresso Nacional brasileiro precisa ampliar o alcance da discussão que hoje conduz. Reduzir a pauta à duração da jornada é tratar apenas parte do problema. É fundamental incorporar as diferentes realidades do trabalho no país, incluindo a informalidade, a condição do estudante trabalhador e as múltiplas jornadas que atravessam a vida de milhões de mulheres.
Mas a responsabilidade não se encerra no Legislativo.
O Poder Executivo tem papel decisivo na formulação de políticas públicas que articulem trabalho, educação e proteção social. E o setor empresarial precisa reconhecer que a forma como organiza o trabalho não é neutra. Ela define, na prática, o tempo de vida de milhões de pessoas.
Em um país marcado por cadeias produtivas extensas e desiguais, essa responsabilidade se amplia. Decisões tomadas nos níveis mais altos da produção repercutem na base, muitas vezes de forma invisível, comprimindo jornadas, ampliando a informalidade e reduzindo o tempo disponível para viver, estudar e se desenvolver.
Não se trata apenas de cumprir a lei, mas de reconhecer que dignidade no trabalho é também uma escolha organizacional, econômica e social.
Sem essa corresponsabilidade entre Estado, empresas e sociedade, qualquer mudança será limitada.
No fundo, não estamos discutindo apenas modelos de jornada.
Estamos decidindo que tipo de sociedade estamos dispostos a sustentar, e quem poderá, de fato, viver nela com dignidade.
Gilberto Alvarez Giusepone Junior
Presidente da Fundação PoliSaber, organização dedicada à educação e ao desenvolvimento de soluções de impacto público, e diretor do Cursinho da Poli
Artigo publicado originalmente no site Congresso em Foco.